O prestigio da manufatura no Design
No contexto da era vitoriana o design começou a ser visto com maus olhos, parte da culpa recaindo principalmente na introdução da mecanização que ocasionou uma baixa no trabalho manual. Adrian Forty indaga em seu livro Objetos de Desejo: Design e Sociedade desde 1750, se “poderiam máquinas inanimadas e burras ter alguma coisa a ver com a qualidade do design e foram elas realmente a causa de todos os males que lhes são atribuídos?”(Forty, 2006, pg. 62), tal indagação nos faz refletir até que ponto uma maquina pode ser culpada e até que ponto o trabalho dela ocorre sozinho, considerando que para ela funcionar, um designer precisa participar da produção.
A priori, é válido destacar que na
Grande Exposição de 1851 a ideia de que as máquinas haviam transformado negativamente
a pratica do design, separando a aparência do produto com a arte de produzir
era muito forte, tendo até a exposição feita por Henry Cole, onde ele colocou
produtos feitos a mão do Oriente e da Índia e produtos feitos por maquinas lado
a lado para que as pessoas pudessem comparar e comprovar a superioridade dos
manufaturados. Entretanto, contrapondo essa opinião, Forty afirma: “as máquinas
não podiam ser a causa da tão denegrida especialização no trabalho de design” (Forty,
2006, pg. 63) até porquê “em nenhum momento as máquinas tiveram alguma influência
independente sobre o design” (Forty, 2006, pg. 63). Dessa forma, é possível constatar
que por mais que um trabalho seja mecanizado ainda existe uma humanização por
traz dele.
Concomitantemente a isso, é importante
ressaltar que a mecanização ocasionou sim muitas mudanças no trabalho e na forma como eram produzidos os produtos como
explica Forty a respeito de um texto de Karl Marx “A introdução de máquinas,
explica Marx, provocou outras mudanças nos tipos de mão de obra usadas
(mulheres e crianças, em vez de artesões especializados) e no modo como era
usada (para cuidar e regular as máquinas, em vez de habilidade na produção),
mas não teve efeito sobre as características essências do processo do qual o
design já fazia parte.” (Forty, 2006, pg. 64). Dessa forma, podemos afirmar com
segurança que as maquinas vieram sim para ocasionar mudanças, mas não para
interferir na qualidade da produção.
Ademais, é de suma importância ressaltar
que a mecanização democratizou o acesso da população aos produtos, pois ela
acabou barateando a fabricação de muitos. Além de gerar empregos para outras áreas
além da dos artesões e designers. Contudo, é inegável que até hoje, a
apreciação por trabalhos 100% manufaturados é muito maior entre o público em
geral. O apreço e o valor de um produto dito como único tem um valor
inestimável para muitos apreciadores. De esculturas a bordados, a delicadeza do
trabalho manual, nunca conseguirá ser totalmente suprimida pelas máquinas,
ainda que estas atualmente sempre estejam ajudando de alguma forma, seja na
produção da matéria prima, seja no transporte, ou em alguma parte da
fabricação.
Em sequência, também devemos destacar a importância
da mecanização para a indústria, principalmente para a indústria têxtil “em
1840, havia 435 máquinas no país e cerca de 8234 mesas de estampagem; dez anos
depois, havia apenas 3939 mesas, enquanto o número de máquinas subira para 604.”
O que isso quer dizer? Que enquanto a estampagem manual decaia cada vez mais a
estampagem nos tecidos de algodão estava em uma crescente, trazendo maiores
oportunidades de emprego e uma maior variedade de estamparia para os
consumidores.
Contudo, na medida que a estampagem
em tecidos de algodão se tornava cada vez mais popular, o trabalho dos
designers era cada vez mais desvalorizados, no qual eles recebiam valores
ínfimos por suas estampas, enquanto os donos das estamparias lucravam cada vez mais,
uma vez que uma estampa fizesse sucesso, como afirma Fonty “Um fabricante
estimou que um único desenho de sucesso valera entre 200 e 300 libras
esterlinas em receitas geradas. Sobre uma despesa inicial de não mais que 15
libras. Era um belo lucro.” (Forty, 2006, pg. 69). Trazendo para o contexto atual,
isso continua se aplicando diariamente, onde designers produzem estampas por um
valor fixo para que elas sejam replicadas infinitas vezes na indústria,
proporcionando um lucro muito grande aos empresários.
Por conseguinte, é correto afirmar
que o prestígio da manufatura é algo real e algo que não se dá dos dias de
hoje, desde o inicio da mecanização esse trabalho tem-se tornada cada vez mais
valorizado. Entretanto, devemos admitir que nos dias atuais, o mundo não daria
conta da demanda se não fosse as maquinas e a industrialização. Ainda que a
maquina possa ter desvalorizado o trabalho do designer, devemos sempre lembrar,
que sem o designer ela não funcionaria, que ele é uma peça fundamental, que nem
todo o processo é mecanizado e que a parte manual sempre vai estar presente.
Referência
FORTY, Adrian. Objetos de Desejo: Design e Sociedade desde 1750. SP: Cosac Naify, 2006
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Texto desenvolvido por Ana Cecília da Costa Souza para a disciplina Introdução ao Estudo do
Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022.
O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof.
Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).
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