O impacto da máquina de costura na indústria têxtil
Por volta do fim da era iluminista, antes da invenção de qualquer tipo de máquina de costura, o processo de confecção de peças com tecido era muito demorado e demandava o trabalho de várias pessoas, principalmente quando a elegância e a criatividade eram o foco, onde se precisava de bons trabalhadores no ramo aos montes. A intensa demanda por roupas cada vez mais personalizadas fez com que alguns mecânicos e inventores da época pensassem em soluções capazes de atender esse público, especialmente nos tempos de revolução industrial, em que a modernização dos processos manuais era cada vez mais próxima e acessível.
Em 1790, já no fervor da primeira revolução industrial, o inventor britânico Thomas Saint patenteou uma máquina que furava e costurava couro e outros materiais parecidos, podendo essa ser a primeira máquina de costura da história, porém, mesmo com provas da patente, não existem evidências da existência dessa máquina nem da comercialização dela, mas ainda assim, é provável que o inventor tivesse um protótipo que acabou não sobrevivendo aos desgastes do tempo. 84 anos depois, um fabricante de máquinas de costura, William Wilson, achou a patente de Thomas no escritório de patentes de Londres e decidiu fazê-la, com os ajustes necessários ele conseguiu construir um modelo prático dessa máquina, que pode ser encontrada em museus.
| Máquina de costura de Thomas Saint, construída por William Wilson. Fonte: https://www.contrado.co.uk/blog/history-of-the-sewing-machine/ |
Só depois de 40 anos após a primeira patente descoberta, em 1830, o alfaiate francês Barthelemy Thimmonier havia criado e patenteado a primeira máquina de costura funcional que pudesse ser comercializada, mas na época, os alfaiates e costureiras a desaprovaram completamente, com receio de que a máquina fosse substituir seus trabalhos e os deixar desempregados. Com isso em mente, os trabalhadores chegaram a realizar motins e quebrar máquinas, o que fez com que a invenção de Thimmonier fosse um grande fracasso em vendas, queimando a largada na corrida da mecanização da costura, com resultados negativos prematuros à época.
Mesmo com a “má fama” da máquina de costura, com o passar dos anos houveram outras tentativas e modelos que funcionaram e chegaram ao mercado, que ainda era muito limitado e servia apenas para necessidades específicas. Nesse contexto, do outro lado do oceano, o inventor, mecânico e empresário estadunidense Isaac Singer, enquanto trabalhava como reparador de máquinas de uma loja, se deparou com uma máquina de costura que precisava de conserto, interessado naquilo, Singer não só a consertou como desenhou um novo modelo baseado em suas observações e com o tempo foi melhorando-o, até que em 1851 finalmente apresentou sua versão da máquina de costura. No mesmo ano a empresa de Singer foi aberta e a produção começou, as máquinas foram ganhando melhorias e credibilidade, até se tornarem um sucesso, disseminando esse tipo de inovação a diversas fábricas.
| Máquina de costura Singer com pedais, 1907 Fonte: https://oldsingersewingmachineblog.files.wordpress.com/2011/08/treadle_catalog.jpg?w=652 |
É de se esperar que uma novidade como essa fosse afetar fortemente as indústrias e as relações de trabalho, ou então gerar retaliações e protestos como já havia acontecido anteriormente com a máquina de Thimmonier, mas não foi isso que aconteceu.
“A introdução da máquina de costura não provocou nenhuma mudança fundamental na indústria. Elas foram comercializadas pela primeira vez em 1851 e os aperfeiçoamentos técnicos dos anos seguintes as tornaram relativamente eficientes no final da década. O relatório da Comissão Real sobre Emprego Infantil de 1864 mostra que o uso dessas máquinas já estava então disseminado. Uma vez que a máquina de costura aumentava em muito a produção de quem trabalhava com agulha, era vantajoso procurar trabalho numa oficina que as fornecesse, acelerando a tendência ao emprego de trabalhadores em fábricas, em vez de em casa.” (FORTY, 2006, pg 74-75)
“Os dados da Comissão Real sobre Emprego Infantil e outras informações mostram que a divisão do trabalho entre cortar e costurar, e entre a costura das várias partes das roupas, já estava bem estabelecida antes da introdução das máquinas de costura. Em geral, o padrão e o corte das roupas ainda eram determinados pelos patrões e lojas de varejo, tal como antes da introdução da máquina de costura.” (FORTY, 2006, pg 75)
No início, os processos mais vitais da construção de uma peça de tecido ainda eram feitos a mão, deixando costuras mais simples e enfeites para a máquina, o que barateou o custo de certas partes das vestimentas produzidas, aumentando-as aos montes, chegando até a influenciar a moda da época.
“Nos vestidos, o efeito das máquinas foi o de aumentar muito a quantidade de adornos que podiam ser aplicados pelo mesmo custo.”(FORTY, 2006, pg 76)
“O grande aumento na quantidade de adornos influenciou a moda feminina. Os vestidos da década de 1860 e começo da de 1870 estavam cheios de enfeites…”(FORTY, 2006, pg 77)
Mesmo com o barateamento dos custos, a diferença só chegava ao cliente, enquanto as costureiras e alfaiates que trabalhavam em máquinas, mesmo produzindo o mesmo ou mais do que os que trabalhavam manualmente, recebiam a mesma proporção de acordo com as horas trabalhadas, ou seja, tinham melhores resultados em menos tempo, mas ainda assim recebiam menos.
“Em outras circunstâncias, a velocidade das máquinas poderia ter possibilitado a seus operadores ganhar mais ou trabalhar apenas algumas horas por dia, em vez das doze ou mais horas por dia que as costureiras à mão costumavam trabalhar. Para o cliente, o custo da costura poderia ter continuado o mesmo e todas as vantagens iriam para o trabalhador.”(FORTY, 2006, pg 77)
“Nos Estados Unidos, onde as circunstâncias eram semelhantes, uma fábrica de camisas de New Haven, Connecticut, pagava às costureiras manuais, em 1860, 62 centavos por camisa, mas, quando as máquinas de costura foram instaladas, as operadoras recebiam apenas 16 centavos por camisa. Para ganhar tanto quanto as costureiras à mão, ou um pouco mais, como era comum, as que operavam máquinas tinham de trabalhar quase o mesmo número de horas.”(FORTY, 2006, pg 77-78)
A exploração desses trabalhadores durou muito tempo até que a disparidade de pagamentos fosse minimamente justa, nesse meio tempo, houveram alguns incidentes em fábricas que pessoas trabalhavam em péssimas condições, um dos mais famosos foi o de Triangle, em 25 de março de 1911, onde 125 mulheres e 21 homens morreram em um incêndio, tanto diretamente, quanto indiretamente. O acidente gerou protestos e foi muito repercutido, fortalecendo movimentos trabalhistas e principalmente feministas, criando pressão quanto a leis e regulações relacionadas às condições de trabalho.
| Incêndio na fábrica Triangle, em Nova York, 1911 Fonte: https://stringfixer.com/pt/Triangle_Shirtwaist_Factory_fire |
Referências Bibliográficas:
FORTY, Adrian. Objetos de Desejo: Design e Sociedade desde 1750. SP: Cosac Naify, 2006
História da máquina de costura: inovação e polêmica. Disponível em: https://audaces.com/historia-da-maquina-de-costura-inovacao-e-polemica/. Acesso em: 12 fev. 2022
ALTMAN, Max. Hoje na História: 1851 - Máquina de costura é inventada. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/hoje-na-historia/5633/hoje-na-historia-1851-maquina-de-costura-e-inventada. Acesso em: 12 fev. 2022
História da costura – como tudo começou para chegar até aqui. Disponível em: http://www.maquinasuniao.com.br/historia-da-costura-como-tudo-comecou-para-chegar-ate-aqui/. Acesso em: 12 fev. 2022
A evolução da costura: confira uma linha do tempo sobre as máquinas de costura e o que está por vir! Disponível em: https://atropicaltecidos.com.br/2018/10/13/a-evolucao-da-costura-confira-uma-linha-do-tempo-sobre-as-maquinas-de-costura-e-o-que-esta-por-vir/. Acesso em: 12 fev. 2022
Isaac Singer Biography. Disponível em: https://www.biography.com/inventor/isaac-singer. Acesso em: 13 fev. 2022
Thomas Saint. Disponível em: https://www.fiddlebase.com/biographical-sketches/saint-thomas. Acesso em: 13 fev. 2022
ASKAROFF, Alex. Newton Wilson Sewing Machines. Disponível em: https://sewalot.com/newton_wilson_sewing_machine.htm. Acesso em: 13 fev. 2022
ALTMAN, Max. Hoje na História: 1911 - Incêndio em fábrica de roupas mata 145 trabalhadores em Nova York. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/historia/10713/hoje-na-historia-1911-incendio-em-fabrica-de-roupas-mata-145-trabalhadores-em-nova-york. Acesso em: 14 fev. 2022
Texto desenvolvido por Bruno Pereira Felix para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).
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