Indústria VS Meio Ambiente: A falta do pensamento sustentável na mentalidade da sociedade industrial do séc. XIX
É indiscutível a preocupação que a sociedade contemporânea tem com o aspecto da sustentabilidade. A formação de organizações de impacto global, como a ONU e a WWF, já demonstram os anseios da humanidade em mudar sua forma de relacionamento com o Meio Ambiente Natural. Desde a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1987, até a definição da Agenda 2030 e os Objetivos do Milênio e sua subsequente modificação para o que conhecemos hoje como Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, foi uma longa caminhada de debates sobre a necessidade de avanço tecnológico e material e a manutenção dos bens naturais que nos mantém vivos. Todos os problemas ambientais e sociais que ameaçam a vida no planeta Terra e as relações que a humanidade trava entre si tornam esses dilemas maiores e mais inexoráveis. Mas para chegarmos ao estado de urgência que estamos hoje, é de se imaginar que nem sempre a sociedade esteve tão preocupada com aspectos básicos de sustentabilidade, e que mesmo hoje ainda não se consolidaram em nossa cultura.
A sociedade industrial do séc. XIX
A tão famigerada “sociedade industrial” é fruto de uma série de eventos, conquistas e mudanças que ficaram conhecidas pela alcunha de Revolução Industrial. Todas essas transformações que aconteceram na humanidade, principalmente em nações que figuravam como potências econômicas, tem como principal característica mudanças drásticas na configuração da sociedade humana. Hoje, é evidente que essa revolução “promoveu a produção de mercadorias de modo que fossem relativamente superados os imperativos naturais; conseguiu-se, a partir deste momento, um distanciamento, uma relativa independência, dos limites e exigências que a natureza impunha ao trabalho” (MARCHI, 2013, p. 115-116).
Com o advento de máquinas a vapor, o manejo do ferro e do aço, desenvolvimento de novos meios de transporte (como a locomotiva), a produção e a distribuição de produtos foi afetada de maneira drástica. Além de se ter um processo de fabricação muito mais rápido, a forma como acontecia a distribuição desses recursos também acelerou de uma maneira nunca antes vista. Agora, as nações industrializadas, Estados Unidos e Inglaterra principalmente, tinham novas potencialidades comerciais a serem exploradas e com isso as relações entre humanos, e humanos e natureza, sofreram um grande impacto.
Faz-se necessário destacar que, por estarmos falando de sociedade industrial, necessariamente nos referimos a um sistema socioeconômico de modelo capitalista. Ainda que outros sistemas também tenham desenvolvido suas indústrias, é nas sociedades capitalistas que se observa o surgimento da concepção de “design”, ponto de partida conceitual para construção desse texto. Se nos debruçamos sobre o sistema capitalista, é inevitável perpassar os estudos de Karl Marx, que conseguiu destrinchar a evolução desse sistema, classificando e identificando seus estágios, sendo “[...] a primeira fase do capitalismo como a simples cooperação de trabalhadores que poderiam, por exemplo, compartilhar uma oficina, comprar os materiais e vender seus artigos coletivamente. No segundo estágio, as diferentes tarefas da manufatura manual foram divididas entre os trabalhadores, sob a direção de um mestre; o terceiro estágio veio com a introdução de máquinas e o estabelecimento do sistema fabril” (FORTY, 1986, p. 64).
Figura 1: Capa do single “A Sociedade Industrial e seu Futuro” da banda de hardcore Ruptura. Fonte: https://rupturacrust.bandcamp.com/track/a-sociedade-industrial-e-seu-futuro
Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável
Muito se discutiu e ainda se discute sobre sustentabilidade. Suas definições são vastas e se localizam nos mais diversos contextos. De uma maneira geral, no entanto, quando se fala de sustentabilidade normalmente se diz que “[...] consiste em encontrar meios de produção, distribuição e consumo de recursos de com o ecológico e econômico, além de perceber a diminuição da produção e do consumo, ajuste social entre países e a diminuição de injustiças sociais dentro do contexto da sociedade” (BARBOSA, 2012; apud OLIVEIRA, 2019, p. 789).
É graças a organizações como a ONU que ideias como o “desenvolvimento sustentável” vai aparecer na sociedade como forma de tentar dirimir os efeitos nocivos das ideologias capitalistas, tentando conciliar a concepção de progresso absorvida pela cultura das sociedades modernas, aliada às suas emergentes preocupações com as questões ambientais. O surgimento desse conceito estaria ligado aos esforços das Nações Unidas em direcionar estudos sobre as mudanças climáticas “como resposta para a humanidade perante a crise social e ambiental que estavam presente na segunda metade do século XX” (BARBOSA, 2008; apud OLIVEIRA, 2019, p. 783). Entre diversos encontros e reuniões com líderes de todas as partes do globo, é que surge a ideia de se definir agendas com metas claras e objetivas para servirem de base para ações políticas em prol do desenvolvimento sustentável. Um dessas agendas, pensada para o período de 2000 à 2015, era composta pelos ODM (Objetivos do Milênio), e que logo mais tarde seria atualizada com a criação de uma nova agenda para o período de 2015 a 2030, composta pelas tão difundidas ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). De acordo com a própria ONU, “Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são um apelo global à ação para acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade” (NAÇÕES UNIDAS, [201-?]).
Todos esses esforços globais acabam por influenciar as mais diversas áreas do desenvolvimento humano, e o Design não poderia estar fora disso. Hoje, quando se trata de conceber novos produtos, a sustentabilidade prevê alguns aspectos que devem ser considerados no ato de se projetar. Esse conjunto de aspectos faz parte de uma “estratégia sistêmica para associar design e sustentabilidade por meio da análise de ciclo de vida dos produtos (Lyfe Cicle Design)” e que “deve considerar os comprometimentos ambientais vinculados a todas as fases de produção que vão desde a pré-produção, produção, distribuição, fase de uso e descarte” (MICELI, MIRANDA, AVELAR, 2018). Designers como Manzini e Vezzoli (2008), de acordo Miceli, Mirando e Avelar (2018), vão destrinchar essa estratégia sistêmica em características que os produtos podem assumir para dirimir o impacto ambiental do seu ciclo de vida. Os dois autores vão propor que esses aspectos correspondem: à redução de recursos, como uma tentativa de “minimizar o uso de materiais, evitando sobras de material” além da “utilização de sistema com menor gasto de energia”; ao uso de materiais de baixo impacto ambiental, que se trata do emprego de “materiais menos poluentes, não tóxicos ou de produção sustentável”; à otimização da vida dos produtos, sendo o “desenvolvimento de produtos que durem mais tempo” que facilitem “a reparação e reutilização” além de “minimizar o número de partes e componentes a fim de gerar resíduos em menor escala”; à reutilização e ou reaproveitamento, procurando produzir “objetos feitos a partir da reutilização ou reaproveitamento de outros objetos, fazendo com que ele possa sobreviver ao seu ciclo de vida”; e por fim a modularidade, que refere-se a “criação de objetos em peças evitando a substituição integral do produto, gerando menos resíduo”.
Figura 2: Automação e Sustentabilidade. Fonte: https://www.siembra.com.br/noticias/automacao-industrial-e-sustentabilidade/
Revolução insustentável
Poucos nesse contexto da história humana abriram os olhos para o que o meio ambiente poderia sofrer com todas essas transformações. A maioria das mentes críticas a esse processo, se empenhava em destrinchar sobre a degradação da qualidade dos produtos e na influência do uso das máquinas nas relações de trabalho. Entre os grandes nomes do Design que surgiram durante a Revolução Industrial do séc. XIX, “[...] Ruskin foi um dos primeiros defensores da chamada ‘qualidade total’ na indústria; porém, durante muitos anos, as suas ideias foram rechaçadas como utópicas, românticas e situadas na contramão da evolução industrial, principalmente pela sua atitude de desconfiança em relação à mecanização. Não por acaso, Ruskin também foi um dos primeiros a se dar conta dos limites do crescimento industrial em termos ambientais, e hoje seus escritos voltam a ser estudados com renovada atenção” (CARDOSO, 2008, p. 79).
Dentro desse contexto capitalista, o emprego das máquinas dentro do processo de fabricação foi, e em partes continua sendo, utilizado para maximizar a quantidade produção e baratear o preço para o consumidor final. Essa lógica coloca em cheque duas questões fundamentais logo de cara: a exploração da mão-de-obra e a qualidade dos bens produzidos. Uma vez que os trabalhadores continuavam com a mesma carga horária de trabalho, só que em um ritmo de produção muito maior, é de se esperar que a qualidade de desempenho de suas funções caísse. No contexto de produção de artigos têxteis e de moda, é possível perceber que “um dos principais objetivos dos donos de sweatshops e atacadistas de roupas, que controlavam o uso delas [das máquinas de costura], era baratear o preço da costura” (FORTY, 1986, p. 77).
Mesmo quando se tratava da produção de outros tipos de bens materiais, como a indústria moveleira, não havia grandes diferenças. Os artesãos marceneiros, que em estágios anteriores do capitalismo trabalhavam em um lógica de manufatura que visava muito mais a entrega de qualidade de um produto que custava mais ao consumidor, durante a Revolução Industrial do séc. XIX, passaram a se tornar profissionais liberais, os conhecidos garretmasters. Nessa nova modalidade de trabalho, necessitavam ter uma produção constante de móveis de madeira para vender a preços extremamente baixos a grandes verejistas, que agora seguiam a lógica de estocagem e não contratavam diretamente os artesãos marceneiros. Esses grandes varejistas, que recebiam a famigerada alcunha de matadouros, “não se preocupavam com a qualidade da mobília que vendiam, desde que sua aparência fosse suficientemente boa para enganar os clientes” (FORTY, 1986, p. 79). Assim, é possível concluir que o crescimento do número desses matadouros, e a consequente piora no estado de exploração dos trabalhadores artesãos, foi “a causa principal do declínio da qualidade, porque os preços baixos que ofereciam aos marceneiros estimulavam o trabalho mal-acabado em larga escala” (FORTY, 1986, p. 81).
Não é incomum encontrar relatos sobre a negligência, e até o desdém, dos detentores do capital quanto a durabilidade dos produtos vendidos. Não fazia diferença caso se desmanchasse em pouco tempo, o que poderia em alguns casos ser considerado uma consequência positiva, pois levaria o consumidor a uma nova compra, alimentando o ciclo de produção em massa de bens de consumo. Neste ciclo, adotado como princípio básico para a estabilidade econômica da sociedade industrial do séc. XIX, é notório a forma como determina uma série de relações que tornam este modelo, a longo prazo, insustentável. No tanto, tudo não passava de uma grande aposta daqueles que detinham o capital, já que entre os anos de 1830 e 1840 ocorria a primeira depressão comercial a afetar esse novo modelo econômico baseado na indústria, e por isso “[...] os fabricantes e os economistas políticos estavam ansiosos para saber se a indústria capitalista sobreviveria [...]” e além disso, no contexto inglês em específico, esses mesmos ansiavam para descobrir “[...] de modo mais imediato, se garantiria que a Grã-Bretanha não perdesse sua participação nos mercados mundiais para concorrentes estrangeiros” (FORTY, 1986, p. 82).
As incertezas não pareciam influenciar as decisões do Estado, que preferia que uma parte infinitamente maior das riquezas geradas se concentrasse na mão de poucos capitalistas industriais do que estabelecer relações mais justas de trabalho e consequentemente uma distribuição de renda mais equânime. Na realidade, a relação do Estado com os trabalhadores do chão de fábrica se mostrou muito contrária ao que se esperava de um órgão regulador, que preferia apostar em medidas anti-liberais para favorecer o lucro da produção da fábrica, sem retorno algum principalmente aos trabalhadores que não estavam envolvidos na criação de designs para o produtos. Entre essas medidas estava “o direito de propriedade do design [as conhecidas leis de propriedade intelectual]” que “dava aos fabricantes uma forma de proteção que interferia na competição do livre mercado” (FORTY, 1986, p. 82). Além disso, havia também “o subsídio às escolas de design [...]” que acabava representando “[...] uma espécie de ajuda estatal à indústria” (FORTY, 1986, p. 82-83).
Mesmo os designers, que estavam em uma situação mais favorável do que os trabalhadores que geriam as máquinas, não escapavam das garras do sistema de exploração da sociedade industrial. Concebendo a ideia de um criador individual que se distinguia do resto do processo de produção para se focar na ideia do produto, os ideais industriais do capitalismo desvirtuaram a capacidade humana de criação de bens materiais, estabelecendo uma divisão do trabalho que “faz com que, para a realização de boa parte dos processos produtivos, conhecimento e preparo especial sejam dispensados e desvincula a concepção da execução. O fracionamento acaba assim por baratear a força de trabalho.” (BRAVERMAN, 1981, p. 70-80; apud CONTINO, CIPINIUK, 2017, p. 48).
Havia, portanto, claramente uma escolha sistemática de favorecer uma classe social em detrimento a outra. A exploração de cidadãos menos abastados permitia engendrar uma estrutura social que dificultava a ascensão dos que já não faziam parte das elites econômicas e políticas. Por isso, os moldes da sociedade industrial do séc. XIX mostravam-se longe de qualquer perspectiva de sustentabilidade social, pois se desvinculavam de qualquer ideia de erradicação da pobreza ou de busca pela redução de desigualdades. Pelo contrário, os capitalistas e seus apoiadores tomavam ações com base nesses aspectos desumanos, ainda que suas ideologias liberais propagassem ideias positivas de autodeterminação. E mesmo que alguns colocassem que o problema estaria atrelado simplesmente ao fenômeno da mecanização, essa ideia não se sustenta, pois, como coloca William Morris, “não é desta ou daquela máquina tangível de aço e metal que queremos nos desfazer, mas da grande máquina intangível da tirania comercial, que oprime a vida de todos nós” (MORRIS, 1914, p. 35, apud FORTY, 1986, p. 85).
Ademais, em um contexto em que a maximização do lucro é primazia, acima de qualquer outra problemática, é de se considerar que não haja uma preocupação com aspectos que envolvem a análise do ciclo de vida dos produtos. Pelo contrário, é perceptível a contramão ideológica aos princípios estabelecidos para uma produção sustentável, como foi citado acima no caso da indústria moveleira que não apresentavam uma boa otimização da sua vida útil, tendo pouca durabilidade e apresentando defeitos com facilidade. Além disso, é de se imaginar que com tantas “gambiarras” aplicadas no desenvolvimento desses artefatos físicos, deveria ser quase impossível a possibilidade de reparos, ou encará-los de forma modular, sendo fácil substituir suas partes.
Figura 3: Toward Sustainable Capitalism. Fonte: https://www.wsj.com/articles/SB10001424052748704853404575323112076444850
Referências bibliográficas
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CARDOSO, Rafael. Uma Introdução à História do Design. São Paulo: Ed. Blucher, 2008, 3.a ed.
MARCHI, Guilherme Sávio. O TRABALHO NA SOCIEDADE INDUSTRIAL: UM BREVE ENTENDIMENTO DA RACIONALIZAÇÃO DO MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA. Aurora: Revista PPGCS UNESP Marília, [s. l.], v. 7, ed. Edição Especial, p. 115-128, 2013. DOI https://doi.org/10.36311/1982-8004.2013.v7n0.3417. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/aurora/article/view/3417. Acesso em: 14 fev. 2022.
MICELI, Maria Teresa; MIRANDA, Maria Geralda de; AVELAR, Katia Eliane S. DESIGN E SISTEMAS PRODUTIVOS: DO CAPITALISMO INDUSTRIAL AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Link permanente: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=3400. Revista Educação Ambiental em Ação, [s. l.], ed. Nº 65, 16 set. 2018. Disponível em: http://revistaea.org/artigo.php?idartigo=3400. Acesso em: 14 fev. 2022.
CONTINO, Joana Martins; CIPINIUK , Alberto. Ideologia, divisão capitalista do trabalho e papel social do designer: um estudo sobre a produção de materialidade no design de moda. Moda Palavra E-periódico, [s. l.], ano Ano 10, ed. n.19, jan/jun . 2017. DOI https://doi.org/10.5965/1982615x10192017040. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/modapalavra/article/view/8813. Acesso em: 14 fev. 2022.
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NAÇÕES UNIDAS (Brasil). Sobre o nosso trabalho para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil: Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil. [S. l.], [201-?]. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em: 14 fev. 2022.
Texto desenvolvido por Wagner Marcks Abreu de Goes Filho para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com)
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