Design e reformismo social

 

Fonte: https://watchesbysjx.com/2020/07/time-consciousness-and-discipline-industrial-revolution.html



A Primeira Revolução Industrial, ponto de partida do que hoje é abrangido como o processo de industrialização, foi um grande marco para o século XVIII, visto que esse processo ocasionou mudanças drásticas e permanentes nos âmbitos social, científico e econômico globalmente ao longo da história. O desenvolvimento de áreas profissionais, avanços tecnológicos, crescimento da capacidade de produção, acessibilidade econômica e a impulsão da economia são algumas consequências benéficas decorrentes da industrialização. No entanto, esse processo também implicou o surgimento de mazelas sociais, tais como a exploração trabalhista, desemprego e a acentuação de impactos ambientais negativos.


Fonte: https://paperdollsforboys.wordpress.com/2009/09/03/hi-ho-hi-ho/


É notório que um dos principais aspectos da industrialização foi a transição de uma economia que se fundamentava inteiramente na manufatura, na qual o trabalhador era responsável por toda a produção artesanal de cada produto individual, para uma em que o trabalho era segmentado e predominado pela maquinofatura, tipo de fabricação onde a máquina realiza parte do trabalho. Buscando atender à crescente demanda do mercado em expansão, tal mudança permitiu a criação de novas ofícios ocupacionais, tornando atividades que antes eram consideradas apenas uma parte do processo em uma profissão completa. De acordo com Karl Marx, “O que distingue uma época econômica de outra, é menos o que se produziu do que a forma de o produzir”.

 

Ademais, cabe também pontuar as transformações que o design sofreu nesse período, visto que está diretamente ligado à relação de artesanato e produção. O design dos produtos de manufatura era tido por muitos como um objeto de caráter artístico e valoroso, capaz de carregar consigo a essência do artista e do esforço exercido na elaboração. Em virtude de tal pensamento, a intervenção das máquinas foi recebida por indivíduos de mentes mais conservadoras como um perecimento ou inferiorização da qualidade do produto e do design, visto que o objetivo industrial se permeia na produção em massa e o potencial máximo de comercialização e contrapõe as características exaltadas na manufatura. O arquiteto C. R. Cockerell argumentou que “[...] A tentativa de substituir o trabalho da mente e da mão por processos mecânicos em nome da economia sempre terá o efeito de degradar e, em última análise, arruinar a arte”.

 

Se a contemporaneidade diluiu as fronteiras entre as áreas do conhecimento e atividades em geral, o fez ainda mais naquelas que, por natureza, têm múltiplas facetas, como o artesanato e o próprio design. Nelas, as tipologias se interpenetram e variam muito de um caso para outro, escapando ao olhar cartesiano que, aqui, seria uma forma de aprisionamento.

(BORGES, 2011, p. 26)

 

Pode-se observar que, em razão da oposição às novas maneiras propostas pelo processo de industrialização, os conservadores ingleses formavam um movimento social de cunho reformista, isto é, uma mobilidade de pessoas que partilhavam dos mesmos interesses e visavam transformar a sociedade, se pautando em mudanças progressivas na legislação e nos institutos pré-existentes para atingir a justiça, o sacro  ou a igualdade. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, ⁠”A utopia é, provavelmente, um dispositivo social necessário para gerar esforços sobre-humanos sem os quais nenhuma grande revolução é alcançada.”

 

Em síntese, o debate sobre a participação da máquina e do ser humano no desenvolvimento e na execução de tarefas ainda se vê como presente e altamente pertinente mesmo na atualidade, ganhando novas facetas conforme as mudanças que vão surgindo ao longo do tempo, se moldando e enquadrando aos novos assuntos. Um bom exemplo no contexto moderno é a questão das polêmicas geradas pela retrospectiva de 2021 do Spotify, muito criticada pelo “mal uso” da tipografia e design de UX, ou seja, a experiência do usuário ao interagir com denominado produto, interface ou site, envolvendo hierarquia de informações, questões estéticas, acessibilidade e eficiência. Embora a discussão seja amplamente difundida e esteja em pauta por vários e vários anos, a complexidade dos questionamentos torna muito difícil a definição de “certos” e “errados”, se estendendo por mais tempo, à deriva pela subjetividade.

 

O processo do design não é bem compreendido psicológico ou praticamente. Tal fato não se deve à falta de estudo. Muitos designers refletem sobre seus próprios processos e uma motivação para o estudo são os grandes espaços em branco, presentes em todas as disciplinas, entre a melhor prática e a mais comum, também entre a prática comum e a prática semi competente. Muito do custo do design, frequentemente até um terço, é usado no retrabalho e correção de erros. Design medíocre provavelmente gasta os recursos do mundo, corrompe o ambiente, afeta a competição internacional. Design é importante; ensinar design é importante.

 (P. BROOKS JR., 2010)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BORGES, Adélia. Design + Artesanato: O caminho Brasileiro. Editora Terceiro Nome, SP, 2011.

P. BROOKS JR, Frederick. The Design of Design: Essays from a computer scientist. Addison-Wesley Professional, Boston, 2010.

CARDOSO, Rafael. Uma introdução à História do Design. Blucher, SP, 2008.

DIAS, Maria Odila. Revolução industrial e reformismo social na Inglaterra pré-vitoriana. FFLCH/USP. 

FURTADO, Celso. Entre inconformismo e reformismo. SciELO Brasil, 1990.

 

Texto desenvolvido por Eric Ferreira para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022.

O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).

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