Design, Mecanização e o custo do futuro.
A Revolução Industrial trouxe a presença das máquinas para o cotidiano das indústrias inglesas. O advento da mecanização trouxe mudanças profundas nos meios de produção, na economia e na mão de obra, e despertou problemáticas relevantes sobre como isso impactaria o design e a vida dos trabalhadores e comerciantes ingleses.
A mecanização trouxe um gigantesco aumento na produtividade das indústrias inglesas, sendo possível fazer o mesmo trabalho do homem mais rápido e em quantidades absurdas. Não demorou muito para as máquinas serem demonizadas e ganharem responsabilidade por degenerar o design da era vitoriana, segundo C. R. Cockerell (1835): “Creio que a tentativa de substituir o trabalho da mente e da mão por processos mecânicos em nome da economia terá sempre o efeito de degradar e, em última análise, arruinar a arte”.
Logo, o grande foco na produção quantitativa das fábricas, e a divisão do trabalho em diferentes etapas de produção fez com que surgisse a crença de que as máquinas levavam a um design inferior, o escritor Charles Eastlake, no seu livro Hints on Household Taste (1868), apresentava a ideia de que os artigos europeus apresentavam graus de uma civilização avançada, mas também, de mau gosto.
Muitos pensadores se apoiavam na ideia de que as máquinas usurparam o controle do artesão sobre a forma do produto, ou seja, que foi tirada dos artesão a responsabilidade sobre a aparência do produto. Isso fez com que a distância entre design e arte aumentasse, visto que o papel da máquina era possibilitar uma maior multiplicação e replicação dos artefatos de forma eficaz e eficiente, no menor tempo e ao menor custo possível, o que em contrapartida não acontecia com produtos fabricados por artesãos, que demandavam mais tempo e deveriam ser únicos e originais.
Também existem aqueles que foram a favor da mecanização e que acreditam que design e industrialização estão diretamente ligados, sendo um apoiado pelo outro. Além disso, criou-se o senso comum de que as máquinas tinham influência direta sobre o design, pensamento que foi disseminado através de diversos escritores vitorianos.
É importante que se compreenda como realmente eram utilizadas as máquinas nas indústrias britânicas do século XIX, um exemplo, são as três principais indústrias da época: estampagem de tecido de algodão, confecção de roupas e fabricação de móveis. “É importante lembrar que o grau de mecanização nas indústrias de meados do século XIX era muito menor do que geralmente se supõe.” (Forty, pp.61-85), de fato, as máquinas não eram aplicadas a todos os estágios da produção, e antes mesmo da introdução das máquinas o trabalho já era divido em diferentes etapas de produção, nas poucos indústrias que mantiveram o trabalho manual o produto já não era feito do início ao fim pelo mesmo artífice.
Das indústrias inglesas, a que recebeu uma atenção redobrada foi a de estampagem de tecidos de algodão. A técnica de estampar algodão manualmente sempre demandou uma certa habilidade do artesão, na aplicação correta de tinta, no registro correto do bloco e na aplicação da pressão certa, no início se utilizavam bloco de madeira, depois passando para placas de cobre, que eram maior e comportavam mais detalhes, por fim, em 1796, as placas foram substituídas por cilindros que tornaram possível a impressão de todo o comprimento da peça de algodão em um único processo, a introdução da máquina a vapor tornou esse processo ainda mais acelerado, “Onde era possível estampar somente seis peças por dia numa única mesa, uma máquina movida a vapor podia estampar até quinhentas peças por dia.”, (Forty, pp.61-85).
Imagem gravada com cilindros de cobre.
Fonte: https://textileindustry.ning.com/forum/topics/estamparia-hist-ria-e-t-cnicas-da-arte-de-estampar?commentId=2370240%3AComment%3A1063937
Segundo Richard Redgrave, o melhor trabalho ornamental é sempre aquele feito parcial ou totalmente pelas mão de um artesão, diferente dos feitos totalmente por máquinas, que são totalmente degradados em termos de estilo e execução. Esse pensamento se fez presente após a consolidação das máquinas na indústria têxtil, que tinha a maior taxa de mecanização e se tornou a mais lucrativa desse período, um design valioso poderia gerar um lucro absurdo para os fabricantes, e esse design poderia ser replicado interminavelmente pelas máquinas de estampagem. Não demorou muito para os fabricantes começarem a se preocupar em proteger a propriedade dos seus design e logo vinham as primeiras campanhas para a criação de lei de proteção de direitos autorais para os desenhos de tecidos estampados.
Porém, a maior parte dos debates sobre a influência das máquinas no design giravam em torno dos processos mecânicos, e não nos sociais. A verdade é que sempre foi mais fácil associar as mudanças do design à tecnologia, e não o contexto social em que as máquinas eram usadas. O foco sempre foi produzir em maior quantidade com o fim de obter mais lucros, pagando salários insignificantes aos trabalhadores, que também passaram a fazer parte mulheres e crianças.
Crianças trabalhando em uma máquina de tear.
Fonte: https://formations.axiomegc.com/a/course/16759/description
Durante as décadas de 1830 e 1840 se desenrolou o debate sobre como o design britânico era inferior ao resto do mundo, e que essa inferioridade partia da falta de habilidade dos artesãos e dos efeitos danosos da mecanização - o que foi justificativa para a criação de escolas de design - , e não do sistema capitalista produtor de mercadorias, que visava apenas a quantidade e o lucro à frente da qualidade. Se fazendo relevante as palavras de William Morris: “Não é desta ou daquela máquina tangível de aço e metal que queremos nos desfazer; mas da grande máquina intangível da tirania comercial, que oprime a vida de todos nós”.
Mesmo com toda a fama sobre os efeitos danosos das máquinas, ela sobreviveu até os dias de hoje, evoluindo e trazendo novas tecnologias que podem gerar debates parecidos com o que eram presentes no século XIX. Colocando dois exemplos específicos em questão: A introdução dos programas CAD e a criação dos NFTs.
É inquestionável que a prática do design passou a depender cada vez mais das máquinas, no caso dos dias de hoje, do computador. Com a introdução dos programas CAD (Computed Aided Design), ou desenho auxiliado por computador, foi possível facilitar o trabalho em diversos ramos. Como engenharia civil e mecânica, arquitetura, design, e diversas outras.
Assim como na revolução industrial, a introdução desse tipo de programa diminui a intervenção humana em certas etapas da produção, como por exemplo, o desenho à mão, e diminui a quantidade de recursos necessários na produção de projetos.
Segundamente, a criação dos NFTs, que colocou em pauta a discussão sobre o tipo de arte que é consumido atualmente. Os NFTs (Non-Fungible Tokens), são trabalhos de artes totalmente virtuais, nos casos dos NFTs da Bored Ape Yatch Club ou os “macacos entediados”, são desenhos gerados por um algoritmo, combinando cerca de 170 características possíveis de maneira aleatória. Recentemente uma coleção de 101 NFTs da Bored Ape Yatch Club arrecadou 24 milhões de dólares em um leilão de luxo.
BAYC foi originalmente criado pela startup Yuga Labs e apresenta 10 mil NFTs gerados de modo aleatório, com mais 170 propriedades únicas (Imagem: Sotheby’s/Divulgação)
Por fim, qual o custo do progresso para o design e para arte? Não restam dúvidas que as máquinas chegaram para ficar e vão permanecer por um bom tempo, e que a maneira como abordamos, fazemos e consumimos design e arte mudou, ainda se faz relevante essa diferenciação entre design e arte? Muitos ainda acreditam que arte é apenas aquilo que fazemos com as mãos, pintando ou esculpindo, e o que fazemos com o auxílio de máquinas é design. Parece absurdo pagar milhões por uma foto de uma macaco que não sairá da tela de um computador, que não é possível tocar, e que pode ser feito por qualquer um, porém essa não é a nova maneira da sociedade consumir arte? E também vale ressaltar, que assim como no século XIX, as reais problemáticas a serem discutidas não é o uso das máquinas, mas como elas são usadas no contexto social em que estamos inseridos e como isso legitima esse tipo de arte.
REFERÊNCIAS:
Fonte: MEGGS, Phillip. História do Design Gráfico. São Paulo: Cosac Naify, 2009
Fonte: FORTY, Adrian. Objetos de Desejo: Design e Sociedade desde 1750. SP: Cosac Naify, 2006
Fonte: CARDOSO, Rafael. Uma Introdução à História do Design. São Paulo: Ed. Blucher, 2008. 3.a ed
Fonte: https://www.educamundo.com.br/blog/programas-cad, 2019
Fonte: https://www.moneytimes.com.br/colecao-de-nfts-bored-apes-e-vendida-por-us-244-milhoes-na-sothebys/, 2021
Fonte: https://formations.axiomegc.com/a/course/16759/description
Fonte: https://designculture.com.br/revolucao-industrial-e-design-grafico-a-eterna-ponte, 2017
Comentários
Postar um comentário